História
História do Tarot
Das cartas de jogo das cortes italianas do século XV ao oráculo digital do século XXI: seis séculos de um sistema simbólico que não para de se reinventar.
O tarot tem uma história estranha e fascinante. Começou como jogo. Virou mito egípcio. Passou pelas mãos de maçons, ocultistas, psicanalistas e artistas. Sobreviveu à modernidade científica, à contracultura e à internet. Cada época o reinventou sem destruir o que havia antes.
Para entender o tarot como ele é hoje — e para onde ele está indo — é preciso percorrer esse caminho.
Linha do tempo
Os primeiros Tarocchi
O registro mais antigo conhecido de um baralho de tarot data de 1440 em Milão, encomendado pela família Visconti-Sforza. Eram obras de arte caras, pintadas à mão para a nobreza. O jogo — chamado tarocchi ou trionfi — era jogado com 78 cartas divididas entre naipes comuns e uma série de trunfos figurativos: os Arcanos Maiores.
Um jogo de corte
Durante dois séculos, o tarot é essencialmente um jogo de carta popular nas cortes italianas. A série de trunfos — com figuras como O Louco, A Roda da Fortuna, O Mundo — era parte do jogo, não objeto de interpretação mística. Diferentes regiões italianas desenvolveram suas próprias sequências e numerações.
Marseille e a padronização
A cidade de Marseille, no sul da França, se torna o centro de produção de cartas de tarot para toda a Europa. O estilo Marseille — com figuras estilizadas, bordas decorativas e uma numeração específica dos Arcanos Maiores — se torna o padrão dominante por mais de um século. Esse baralho ainda é amplamente usado hoje, especialmente na tradição francesa.
Court de Gébelin e o mito egípcio
O ocultista e maçom francês Antoine Court de Gébelin publica um ensaio afirmando que o tarot era o 'Livro de Thoth' — um antigo texto sagrado egípcio preservado nas cartas. A afirmação era completamente inventada, mas o impacto foi enorme. A ideia de que o tarot era um receptáculo de sabedoria antiga e oculta transformou sua percepção cultural e abriu caminho para o uso esotérico sistemático.
Etteilla e a leitura divinatória
Jean-Baptiste Alliette, usando o pseudônimo 'Etteilla' (seu sobrenome invertido), publica o primeiro método sistemático de adivinhação com cartas de tarot. Ele cria um baralho especialmente redesenhado para fins divinatórios e estabelece correspondências entre cartas, astrologia e numerologia. É o primeiro 'sistema' de tarot no sentido moderno.
Eliphas Lévi e o ocultismo europeu
O ocultista francês Eliphas Lévi associa o tarot à Cabala judaica, especificamente aos 22 Arcanos Maiores e as 22 letras do alfabeto hebraico. Essa conexão se torna central na tradição esotérica europeia e influencia profundamente os círculos ocultistas do século XIX. O tarot passa a ser visto como um mapa do universo espiritual, não apenas uma ferramenta de adivinhação.
A Golden Dawn
A fundação da Hermetic Order of the Golden Dawn em Londres concentra alguns dos ocultistas mais influentes da época — entre eles Arthur Edward Waite, Samuel Liddell MacGregor Mathers e, mais tarde, Aleister Crowley e W.B. Yeats. A ordem desenvolve um sistema elaborado de correspondências esotéricas para o tarot, integrando Cabala, astrologia, alquimia e magia cerimonial. É nesse ambiente que os dois baralhos mais influentes do século XX nascerão.
Rider-Waite-Smith: uma revolução visual
Arthur Edward Waite e a artista Pamela Colman Smith publicam o que se tornará o baralho mais influente da história. A inovação central: pela primeira vez, todos os 78 cartas — inclusive os 56 Arcanos Menores — têm cenas figurativas completas. Isso transforma o tarot: a leitura intuitiva, baseada nas imagens, se torna possível para qualquer pessoa. A maioria dos baralhos modernos descende dessa tradição.
O Livro de Thoth de Crowley
Aleister Crowley publica O Livro de Thoth, acompanhado pelo baralho ilustrado pela pintora Lady Frieda Harris. O baralho Thoth — profundamente influenciado pela geometria sagrada, astrologia e tradição da Golden Dawn — apresenta uma visão radicalmente diferente do Rider-Waite. É mais abstrato, mais esotérico, mais perturbador. Crowley nomeia a IA que guia as leituras de 'Thoth', chamado no Egito antigo de Tahuti — o deus da sabedoria, da escrita e da magia. Um nome que ressoa até hoje.
Popularização e psicologia junguiana
O psicanalista Carl Jung não estudava tarot diretamente, mas sua teoria dos arquétipos — padrões universais de experiência humana presentes no inconsciente coletivo — forneceu uma linguagem secular para entender por que as cartas ressoam. Os Arcanos Maiores como O Herói, A Sombra, O Anima — conceitos junguianos — mapeiam naturalmente sobre as cartas. Isso abriu o tarot para pessoas sem interesse esotérico, como ferramenta psicológica de autoconhecimento.
O boom editorial
Com a contracultura e o movimento New Age, centenas de novos baralhos são publicados. O tarot se democratiza: não é mais propriedade de tradições ocultistas fechadas. Artistas, feministas, pagãos, psicólogos e místicos de todas as tradições criam seus próprios baralhos. A diversidade de interpretações e estilos explode.
A era digital
O tarot entra na internet — apps, leituras online, redes sociais. Mas algo se perde na tradução: a maioria das experiências digitais é genérica, padronizada, desconectada da pergunta real do usuário. Surge o desafio de preservar a profundidade simbólica do tarot na escala e velocidade do mundo digital. É nesse contexto que a próxima fase começa.
Sobre a permanência
"O que sobrevive por seis séculos não sobrevive por acidente. O tarot resistiu porque tocou em algo que não muda: a necessidade humana de encontrar padrões no caos, de dar forma ao que é difuso, de ver o invisível."
Perguntas frequentes
Qual a origem do tarot?
O tarot tem origem documentada na Itália do século XV, especificamente no norte da Itália (Milão, Ferrara, Bolonha). Os primeiros baralhos conhecidos são os Tarocchi italianos, criados para as famílias nobres como o jogo do tarocchi. A transição de jogo para ferramenta esotérica aconteceu gradualmente entre os séculos XVII e XVIII, impulsionada pelo ocultismo francês.
O tarot tem origem egípcia?
Não. A teoria de que o tarot tem origem egípcia foi criada pelo ocultista francês Antoine Court de Gébelin em 1781, que afirmou — sem evidências — que as cartas eram o 'Livro de Thoth', um texto sagrado egípcio. A ideia era fascinante mas não tinha base histórica. O tarot tem origem documentada na Itália do século XV. Ainda assim, a conexão simbólica com o Egito se tornou parte integrante da tradição esotérica do tarot.
Quando o tarot passou a ser usado para adivinhação?
O uso do tarot para adivinhação se popularizou no final do século XVIII, especialmente na França. O ocultista Jean-Baptiste Alliette (conhecido como Etteilla) foi o primeiro a publicar um método sistemático de leitura divinatória com cartas de tarot, em 1783. Antes disso, o tarot era usado principalmente como jogo.
O que é o baralho Rider-Waite e por que é importante?
O Rider-Waite-Smith (1909) é o baralho de tarot mais influente da história moderna. Criado por Arthur Edward Waite e ilustrado por Pamela Colman Smith, foi o primeiro baralho a ter cenas figurativas em todas as 78 cartas — inclusive nos Arcanos Menores. Isso facilitou enormemente a leitura intuitiva e tornou o tarot acessível ao público geral. A maioria dos baralhos modernos é baseada nessa tradição visual.
Próximo na série
Os tipos de baralho de tarot
Marseille, Rider-Waite, Thoth e os baralhos modernos — como cada tradição vê e interpreta as cartas de forma diferente.
